“Monstros” Taxonômicos do “Novo Mundo”: De como Tatus, Tamanduás e Preguiças Desafiaram o Pensamento Zoológico e Evolutivo do Século XVI Ao XIX
DOI:
https://doi.org/10.32991/2237-2717.2026v16i1.p161-196Palabras clave:
xenarthras, paleobiogeografia, athanasius kircher, criacionismo, teoria evolutivaResumen
Este artigo discute o papel dos Xenarthras, representados atualmente por tatus, preguiças e tamanduás, na modificação de conceitos sobre “natureza” existentes desde a Antiguidade Clássica. A importância dessa fauna na revolução científica que resultaria na sistemática e taxonomia modernas, baseadas em filogenia e evolução, também é destacada. Primeiramente, foram analisadas obras e relatos sobre esses animais feitos pelos primeiros cronistas que descreveram a fauna do “Novo Mundo”. Nelas, é possível dimensionar os impactos dessa fauna sui generis sobre uma ciência zoológica ainda em formação na Europa. Em seguida, é tomado como estudo de caso o livro de Athanasius Kircher, a “Arca de Noé” (1675). A engenhosidade com que Kircher explica a existência de animais outrora ausentes na Arca bíblica, dentre eles os Xenarthras, muito nos revela acerca da influência dessa “nova” fauna sobre a Filosofia Natural da época. Por fim, o artigo mostra a inserção dos Xenarthras extintos, como preguiças e tatus gigantes, nos desenvolvimentos da biologia comparada, bem como nos grandes debates da paleontologia e geologia dos séculos XVIII e XIX. Desde as descrições naturalístico-fantásticas dos Xenarthras vivos, como em Hans Staden e André Thevet, ainda no século XVI, até os seus primeiros fósseis estudados por Georges Cuvier na Alemanha e Peter Lund no Brasil oitocentista, são aqui problematizados. Foram grandes as consequências da “descoberta” europeia dos Xenarthras sobre a Filosofia Natural do período, com implicações para a própria consolidação posterior das ciências naturais. O artigo discute como a descoberta pela ciência ocidental desses ‘monstros taxonômicos’ foram determinantes para a epistemologia de áreas como a biologia comparada, biogeografia e para a consolidação da teoria evolutiva. Pretende também provocar a discussão de como estudos da ecologia histórica de grupos como os Xenarthras podem ser importantes para o fortalecimento e valorização de projetos de conservação da diversidade restante desse importante grupo da mastofauna americana, principalmente no Neotrópico.
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